quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Brasil: País da pesquisa e Inovação - #SQN


Olá pessoal

  Hoje eu venho falar de um tema que não tem muito a ver com Tecnologia na CI, mas que afeta a forma como essa tecnologia pode ser criada/alavancada no Brasil. Eu já vinha preparando esse texto a um longo tempo, mentira eu me propus a fazer isso ontem depois que ouvi a noticia que vem a seguir, sobre o porquê do Brasil não ocupar uma papel de protagonismo na questão de tecnologia e inovação.

 Ontem Silvio Meira, no programa bits da noite, chamou atenção para a notícia de que a comissão de ciência, tecnologia, inovação, comunicação e informática (CCT) do senado aprovou fim do contingenciamento para inovação e tecnologia que, como o nome sugere, veda o contingenciamento de recursos orçamentários destinados ao desenvolvimento científico e tecnológico.

 O que chama a atenção é o valor destinado para o fundo nacional de desenvolvimento científico e tecnológico que foi de 1 bilhão de reais. Então, isso quer dizer que, a maior reserva financeira de investimento à ciências e tecnologia disponibilizado pelo governo, equivale a 1.000.000.000 de reais, muito menos do que os nossos deputados receberam de emendas parlamentares.

 Isso na verdade dói um pouco por que, estima-se que quase a metade (47%) do investimento de pesquisa do Brasil é privado. Se formos para países mais conhecidos nessa questão, como Estados Unidos e Alemanha (66%) e Coréia do Sul (73%), a maioria do orçamento da pesquisa vem da iniciativa privada.

 Além disso investimos pouco. Em uma pesquisa da Batelle mostrou que o Brasil investiu, em 2014, apenas 1,3% do seu PIB (cerca de 33 Bilhões de US$). Vale lembrar que em 2014 estávamos no início da crise e que esse número deve ser BEM menor hoje. Apesar de sermos o 10º maior investidor (os EUA investem 465 Bilhões) vemos países como Israel (que investe 11 Bilhões de US$ e 4.2% do PIB) e Canadá sim investimos mais do que eles (com seus 30 Bilhões e 1,9% do PIB) serem mais competitivos do que nós em tecnologia e inovação em escala global.

 É interessante ver outro ponto neste relatório da Batelle é que países como Itália, Holanda e Irlanda possuem respectivamente 3x, 4x e 4x mais densidade de pesquisadores do que o Brasil ,mas eles não estão na copa do mundo. Quando o assunto é futebolístico, o jorna extra destaca que o Brasil investiu 2x mais em pesquisa do que na própria copa do mundo.

 Mas o que eu quero chamar a atenção, roubando a ideia do Silvio Meira, é que se considerarmos que empresas como Amazon (investe 16.1 Bilhões de US$) investe pouco mais que a metade do que todo o Brasil em pesquisa, temos todos os elementos necessários para chegar a algumas conclusões.


  1. Investimos pouco;
  2. Investimos mal;
  3. Formamos pouco pesquisadores;
  Por que investimos pouco? Por que existe uma considerável dependência do capital público para pesquisa (lembrem-se, ESTAMOS EM CRISE) e o tamanho do espaço que há para a iniciativa privada fomentar pesquisas e quando olhamos para o percentual  do PIB investido, temos a certeza que poderíamos ter números melhores do tamanho do investimento (a Índia investe mais do que nós).

 Por que investimos mal? Se considerarmos que países que possuem excelência em C&T tais como Israel, Canadá e Suécia (de quem compramos aqueles caças) investem menos do que nós, e em alguns casos, MUITO menos do que nós (Dinamarca, Noruega e Cingapura), nos perguntamos por que existem tão poucas (relativamente falando) pesquisas no Brasil que ganham relevância global e que de fato se tornam produtos que tornam as vidas melhores.

 Por que formamos poucos pesquisadores? Não vou argumentar pelo caminho dos números, e sim, pelo modelo de academia que vigora no Brasil (e que resulta nestes números). No Brasil, são minoria as pesquisas que são ligadas a indústria, ainda não é comum no nosso país empresas trazer para dentro de si a academia (e a academia ir para indústria também) como é no Reino Unido e Canadá. 

 E no quê que isso resulta? Isso resulta em mestres e doutores que, em sua maioria, são formados para retro-alimentar a academia e gritar por concursos públicos nas universidades e órgãos de pesquisa. Temos muitos mestres e doutores prestando consultoria em empresas privadas, mas poucos que, efetivamente, fazem pesquisa dentro das empresas e assim torna o pesquisador um terceirizado (o que não é ruim para uma parcela das empresas, mas é horroroso quando falamos de uma maioria delas).

 E por que uma empresa deveria contratar um pesquisador. Juro que não vou comentar a questão de que empreender no Brasil é complicado (embora não dê para desconsiderar isso). Mas o pesquisador não deveria ser àquele que ajuda as empresas a resolverem seus problemas através da pesquisa? Quantas empresas no Brasil não tem problemas relativos a tecnologias, produtos inadequados ou até mesmo falta de inovação. Vemos ai um problema de mão dupla: (i) as empresas não conseguem (ou até conseguem) enxergar o valor de possuir pessoas qualificadas e habilitadas em resolver problemas para deixá-la mais competitiva. (ii) São formados pesquisadores mais preocupados (e quase histéricos) em produzir suas dissertações e teses (as vezes artigos científicos) do que em resolver as problemas das pessoas fora da academia (e das empresas que pagam por isso).

 Criamos doutores para entrarem nas universidades e gerarem mais doutores mantendo esse dead lock ciclo, até que a Pirâmide de Ponzi não mais se sustente e tenhamos que ver coisas deste tipo ou destes tipo. Então o problema do Brasil para a pesquisa não é só a falta de verba, nem muito menos a falta de competitividade e sim a falta de propósito, de um plano de inovação que mostre para a academia como fazer o Brasil mais forte/competitivo/eficiente.

 Vejamos esta notícia, socialmente falando ela é ótima pois aponta que o número pessoas que acessam as universidades do Brasil aumentou, mas o nosso problema é: O que aconteceu com essas pessoas? Será que realmente a realidade de um número considerável delas mudou? Na Alemanha, existe uma preferência pelo ensino técnico e que pasmem, podem ser financiadas pelas empresas. 

 Enfim, temos muito que aprender com esses países (ou mesmo empresas) quando se trata de pesquisa e inovação, mas o que torna preocupante o papo colocado nesse blog é: Que nesse ritmo, em um futuro não muito distante, o Brasil será já o somos majoritariamente consumidor de tecnologia estrangeira.

 Abraços a todos...

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Pílulas Inteligentes ou Tratamento Médicos Dirigidos por Informação


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    Olá pessoal

  Depois de um ano e meio sem postar umas boas férias estou de volta com o Blog para comentar um dos assuntos mais debatidos esta semana que é a aprovação por parte da agência americana FDA (Foods and Drugs Administration) do primeiro medicamento que contem um sistema de rastreamento de ingestão digital. A pílula, chamada Abilify MyCite que é uma versão conectada do medicamento Aripiprazole (Abilify), se trata de um antipsicótico que auxilia no tratamento de transtorno bipolar e esquizofrenia. Mas, qual é a polêmica por trás desta pílula? Bem, talvez o nobre leitor não tenha percebido, mas no texto acima foram utilizadas as palavras "sistema de rastreamento de ingestão digital" e "versão conectada do medicamento.

  Na prática, quando a pílula toca o estômago, esta envia um sinal eletrônico para registrar se e quando, um paciente também ingeriu a pílula. Um sensor, que vai na capsula, é capaz de rastrear quando a pílula foi tomada, a dosagem, bem como uma série de outros indicadores (freqüência cardíaca, padrões de sono e níveis de atividade). A pílula possui um chip do tamanho de um grão de areia e é feito de magnésio, cobre e silício (minerais que ingerimos nos alimentos). O funcionamento da pílula se dá entre trinta minutos e duas horas após a ingestão. E quando a píluladeixa de funcionar, o chip é naturalmente absorvido pelo organismo, sem provocar efeito tóxico algum.

   A pílula foi desenvolvida pela empresa Proteus Digital Health (sim DIGITAL), que tem como base o uso de tecnologia para oferecer melhores tratamentos (veja a missão da empresa), em parceria com o laboratório japonês Otsuka, e foi pivô de um "novo" velho debate sobre duas coisas: (i) ética e privacidade e (ii) remédios inteligentes, e como não estou nem ai não sou especialista no primeiro ponto, vou me prolongar neste post no segundo. Apesar da brincadeira acima, os debates sobre ética e privacidade ser trazidos pelo Abilify MyCite já estão presentes e valem a pena ser olhados como aqui e aqui...

  Decidi seguir pelo caminho dos "medicamentos inteligentes", o Abilify MyCite está listado na categoria "Smart Pill", por que o debate sobre a inteligência destes remédios é algo recente (mas não é novo), e segundo, toda a inteligência aplicada aos medicamentos vem da sua capacidade de lidar com informação (daí o título do post). Como funciona o Abilify MyCite? Simples, primeiro os pacientes devem baixar um aplicativo de celular, depois anexar o sensor (que não é tão pequeno assim) ao abdômen, e quando eles tomam a medicação os indicadores são atualizados (via bluetooth) para seus smartphones. Os pacientes podem optar por compartilhar esses dados com quem quiserem. E o grande diferencial do remédio é: os provedores que tenham acesso à informação podem ser alertados quando o paciente não está tomando sua medicação.

  Ou seja, o remédio não é "inteligente" em si, mas funciona como um sensor, atrelado a um sistema de informação (aplicativo) que avalia a dosagem de remédios que deve ser consumida e apenas notifica quando se precisa tomar novamente o remédio. Por que essa ideia não é necessariamente "nova"? Em 2014, médicos americanos, coreanos e alemães, desenvolveram um curativo inteligente que monitora oxigenação de ferimentos a partir da composição química do próprio curativo. A bandagem é líquida e “brilha com uma luz azul-esverdeada quando o tecido está oxigenado, e vermelha quando há menos oxigênio”. Uma versão de curativo mais parecido com o Abilify MyCite foi desenvolvido por um laboratório americano em parceria com o MIT e Harvard. Este curativo monitora temperatura, pH e oxigênio da ferida e quando estiver na hora certa, ele próprio libera o remédio. O interessante é que para este segundo caso, os dados do machucado podem ser acompanhados por um Smartphone e se a infecção sair do controle, o próprio médico pode liberar (manualmente) mais remédios.

  Neste outro caso, temos também um exemplo de dispositivo inteligente que não se refere ao remédio em si, mas sim, um estrutura (neste caso curativo) que toma decisões baseadas em dados. Mas existem exemplos de remédios, que são "efetivamente" inteligentes, mas ainda assim baseados em informação. Por exemplo, em 2015, a USP já pesquisava medicamentos inteligentes que liberariam drogas a medida que ela fosse necessária, mas, que também poderiam selecionar que células elas iriam tratar. Assim, células saudáveis não sofreriam a intervenção da droga, enquanto que células doentes receberiam o medicamento. Em um artigo publicado pela Nature em Fevereiro deste ano foi mostrado que pesquisadores holandeses já desenvolveram, e testaram com sucesso em tubos de ensaio, medicamentos que só liberam a droga se o paciente realmente estiver doente.

  Estes dois últimos exemplos, podem não parecer ter muito a ver com informação, mas vale lembrar que estes medicamentos funcionam com base em bio-sensores. Os bio-sensores destes medicamentos citados lidam com estruturas muito conhecidas por todos nós chamadas de DNA (ácido desoxirribonucleico) e é a partir da leitura desse DNA que os remédios entendem o que deve ser feito.

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   Todos sabemos que o DNA contem a nossa "informação genética". Mas em que suporte? em que linguagem? O nosso DNA possui um formato helicoidal e é basicamente formado por quatro elementos orgânicos Citocina (C), Adenina (A), Timina (T) e Guanina (G). É na combinação destes 4 elementos que toda a codificação genética ocorre, e é na leitura desses 4 elementos que pode se determinar se o que estamos é o DNA de uma célula cancerosa ou de uma célula saudável de um indivíduo. Confesso que não entendo nada disso, o que está escrito aqui acima foi o melhor que pude absorver da minha esposa, doutora em biologia e e trabalhou bio-sensores, mas para a linha de pensamento, podemos compreender que o tal medicamento inteligente deve ser capaz observar o ambiente (sensores), analisar o DNA de onde ele pode agir, e dado os resultados agir ou não (efetuadores).

  Mas qualquer que seja a linha que consideremos para os remédios inteligentes, todos elas implicam em como informação pode tornar o uso dos remédios mais efetivos e eficientes. Claro que não se sabe ainda como tais medicamentos irão de fato funcionar, inclusive o FDA negou a primeira tentativa de legalização do Abilify MyCite por falta de dados, e nem sabemos como será o futuro destes remédios não só como tratamentos, mas como negócios cultura nos serviços de saúde. Mas é visível que a forma como os tratamentos atuais lidam com informação não são eficazes e a indústria da saúde já sabe disso. Então a pergunta que fica é: Qual é o nosso papel nisso?

 Abraços a todos e segunda tem outro post.