sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Pílulas Inteligentes ou Tratamento Médicos Dirigidos por Informação


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    Olá pessoal

  Depois de um ano e meio sem postar umas boas férias estou de volta com o Blog para comentar um dos assuntos mais debatidos esta semana que é a aprovação por parte da agência americana FDA (Foods and Drugs Administration) do primeiro medicamento que contem um sistema de rastreamento de ingestão digital. A pílula, chamada Abilify MyCite que é uma versão conectada do medicamento Aripiprazole (Abilify), se trata de um antipsicótico que auxilia no tratamento de transtorno bipolar e esquizofrenia. Mas, qual é a polêmica por trás desta pílula? Bem, talvez o nobre leitor não tenha percebido, mas no texto acima foram utilizadas as palavras "sistema de rastreamento de ingestão digital" e "versão conectada do medicamento.

  Na prática, quando a pílula toca o estômago, esta envia um sinal eletrônico para registrar se e quando, um paciente também ingeriu a pílula. Um sensor, que vai na capsula, é capaz de rastrear quando a pílula foi tomada, a dosagem, bem como uma série de outros indicadores (freqüência cardíaca, padrões de sono e níveis de atividade). A pílula possui um chip do tamanho de um grão de areia e é feito de magnésio, cobre e silício (minerais que ingerimos nos alimentos). O funcionamento da pílula se dá entre trinta minutos e duas horas após a ingestão. E quando a píluladeixa de funcionar, o chip é naturalmente absorvido pelo organismo, sem provocar efeito tóxico algum.

   A pílula foi desenvolvida pela empresa Proteus Digital Health (sim DIGITAL), que tem como base o uso de tecnologia para oferecer melhores tratamentos (veja a missão da empresa), em parceria com o laboratório japonês Otsuka, e foi pivô de um "novo" velho debate sobre duas coisas: (i) ética e privacidade e (ii) remédios inteligentes, e como não estou nem ai não sou especialista no primeiro ponto, vou me prolongar neste post no segundo. Apesar da brincadeira acima, os debates sobre ética e privacidade ser trazidos pelo Abilify MyCite já estão presentes e valem a pena ser olhados como aqui e aqui...

  Decidi seguir pelo caminho dos "medicamentos inteligentes", o Abilify MyCite está listado na categoria "Smart Pill", por que o debate sobre a inteligência destes remédios é algo recente (mas não é novo), e segundo, toda a inteligência aplicada aos medicamentos vem da sua capacidade de lidar com informação (daí o título do post). Como funciona o Abilify MyCite? Simples, primeiro os pacientes devem baixar um aplicativo de celular, depois anexar o sensor (que não é tão pequeno assim) ao abdômen, e quando eles tomam a medicação os indicadores são atualizados (via bluetooth) para seus smartphones. Os pacientes podem optar por compartilhar esses dados com quem quiserem. E o grande diferencial do remédio é: os provedores que tenham acesso à informação podem ser alertados quando o paciente não está tomando sua medicação.

  Ou seja, o remédio não é "inteligente" em si, mas funciona como um sensor, atrelado a um sistema de informação (aplicativo) que avalia a dosagem de remédios que deve ser consumida e apenas notifica quando se precisa tomar novamente o remédio. Por que essa ideia não é necessariamente "nova"? Em 2014, médicos americanos, coreanos e alemães, desenvolveram um curativo inteligente que monitora oxigenação de ferimentos a partir da composição química do próprio curativo. A bandagem é líquida e “brilha com uma luz azul-esverdeada quando o tecido está oxigenado, e vermelha quando há menos oxigênio”. Uma versão de curativo mais parecido com o Abilify MyCite foi desenvolvido por um laboratório americano em parceria com o MIT e Harvard. Este curativo monitora temperatura, pH e oxigênio da ferida e quando estiver na hora certa, ele próprio libera o remédio. O interessante é que para este segundo caso, os dados do machucado podem ser acompanhados por um Smartphone e se a infecção sair do controle, o próprio médico pode liberar (manualmente) mais remédios.

  Neste outro caso, temos também um exemplo de dispositivo inteligente que não se refere ao remédio em si, mas sim, um estrutura (neste caso curativo) que toma decisões baseadas em dados. Mas existem exemplos de remédios, que são "efetivamente" inteligentes, mas ainda assim baseados em informação. Por exemplo, em 2015, a USP já pesquisava medicamentos inteligentes que liberariam drogas a medida que ela fosse necessária, mas, que também poderiam selecionar que células elas iriam tratar. Assim, células saudáveis não sofreriam a intervenção da droga, enquanto que células doentes receberiam o medicamento. Em um artigo publicado pela Nature em Fevereiro deste ano foi mostrado que pesquisadores holandeses já desenvolveram, e testaram com sucesso em tubos de ensaio, medicamentos que só liberam a droga se o paciente realmente estiver doente.

  Estes dois últimos exemplos, podem não parecer ter muito a ver com informação, mas vale lembrar que estes medicamentos funcionam com base em bio-sensores. Os bio-sensores destes medicamentos citados lidam com estruturas muito conhecidas por todos nós chamadas de DNA (ácido desoxirribonucleico) e é a partir da leitura desse DNA que os remédios entendem o que deve ser feito.

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   Todos sabemos que o DNA contem a nossa "informação genética". Mas em que suporte? em que linguagem? O nosso DNA possui um formato helicoidal e é basicamente formado por quatro elementos orgânicos Citocina (C), Adenina (A), Timina (T) e Guanina (G). É na combinação destes 4 elementos que toda a codificação genética ocorre, e é na leitura desses 4 elementos que pode se determinar se o que estamos é o DNA de uma célula cancerosa ou de uma célula saudável de um indivíduo. Confesso que não entendo nada disso, o que está escrito aqui acima foi o melhor que pude absorver da minha esposa, doutora em biologia e e trabalhou bio-sensores, mas para a linha de pensamento, podemos compreender que o tal medicamento inteligente deve ser capaz observar o ambiente (sensores), analisar o DNA de onde ele pode agir, e dado os resultados agir ou não (efetuadores).

  Mas qualquer que seja a linha que consideremos para os remédios inteligentes, todos elas implicam em como informação pode tornar o uso dos remédios mais efetivos e eficientes. Claro que não se sabe ainda como tais medicamentos irão de fato funcionar, inclusive o FDA negou a primeira tentativa de legalização do Abilify MyCite por falta de dados, e nem sabemos como será o futuro destes remédios não só como tratamentos, mas como negócios cultura nos serviços de saúde. Mas é visível que a forma como os tratamentos atuais lidam com informação não são eficazes e a indústria da saúde já sabe disso. Então a pergunta que fica é: Qual é o nosso papel nisso?

 Abraços a todos e segunda tem outro post.



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